fui vitima de violência doméstica.
A hora de contar a história da minha vida.
Pensei muito sobre isto, se escrevia, se não. Se publicava e dava a conhecer às pessoas de forma resumida tudo aquilo que passei, ou se era mais um texto que ficaria guardado nos documentos do meu computador ou no meu caderno onde costumo escrever (mais um do mesmo assunto que escrevi e não decidi publicar). E se, estás a ler isto, provavelmente decidi arriscar e dar-te a conhecer a minha história, a verdadeira, sem farsas, sem aparências, dura e crua. Hoje, chegou o dia de admitir, de falar sobre o assunto até porque o dia é adequado para tal. Assim digo, fui "vitima" de violência doméstica.
Nunca fui muito de rodeios e sempre disse o que tinha a dizer doesse a quem doesse. Tenho de tudo menos de ser daquelas pessoas que passam paninhos quentes nas pessoas ou nas atitudes que fazem, foi esse o meu maior dilema nesta história.
Cheguei a pontos de não poder sequer com a presença de alguém que me fez tanto mal. Que arruinou completamente a minha vida e o meu estado de saúde mental.
Não consigo sequer considerar essa pessoa da minha família. Devido à magoa e rancor que guardo desse "pai" que tanto diz ser.
Sim, fui uma "guerreira" na minha vida doméstica nos meus últimos 20 anos. E sim, uso guerreira em vez de vitima porque nunca me senti como tal, porque sempre tentei combater isso de uma maneira que nem hoje consigo entender. Porém, foi mais as vezes que sofri no meio disto do que propriamente as vezes que tentei chegar à voz da razão.
Fui drogada, fui p*ta, fui besta, fui ingrata, fui tudo e mais alguma coisa na boca de quem não me é nada a não ser pai no B.I. e infelizmente, no sangue.
Senti-me chantageada em praticamente toda a minha vida desde que me lembro, tenho lutas nas minhas memórias onde envolviam cabeças cheias de galos ou apertos num pescoço que considero meu.
Fui humilhada num bar quando tinha saído uma vez à noite num verão e saí do mesmo com um braço a agarrar-me, inclusive pessoas viram esse acontecimento e tudo o que fizeram foi escrever uma carta que nem sequer chegou ao destinatário.
Quase me proibiram de sair com amigos, de ter amizades do sexo masculino só porque tinha de ser menina de muitas amizades femininas, apesar de, as que tinha, na maioria dos casos era tudo falsidade.
Sempre que essa pessoa chegava a casa ás tantas da manha, eu estava acordada, com receio que a mesma fizesse algo de mal aos meus, aos restantes moradores daquelas quatro paredes. E, muitas das vezes, adormecia a chorar por não ter tido a sorte de ter calhado com um pai presente, que me aconselhasse sobre a vida ou apenas para me ouvir falar de rapazes.
Vi a minha mãe marcada pelas pancadas que levava e, doía cada vez mais quando ela chorava ou quando ela própria já tinha medo de chegar a casa.
E sabem o que doía mais? Ter de aparentar que tudo estaria bem por fora das quatro paredes, que eu tinha uma família feliz e que gostava de todos por igual, que o meu "pai" tinha orgulho em mim, que não me insultava e principalmente não me humilhava publicamente. Quando na realidade, mal se falava, mal nos encarávamos, porque as nossas rotinas seriam diferentes todos os anos que frequentaria o ensino básico e o secundário, porque simplesmente, eu quase nunca o via em casa, triste não é?
Imaginem uma menina que via todas as conhecidas e amiguinhas com a presença do pai, que as iam buscar à escola ou simplesmente teriam a presença dele nas refeições ou no domingo à tarde e não aceitava que isso estaria a acontecer com todas as outras e com ela isso não acontecia, nenhuma vez. Ou se por ventura, acontecesse, era como senão estivesse a acontecer, porque, estar ali ou não, acabava por não fazer diferença, porque o sentimento de ódio pela situação seria o mesmo. Essa menina, seria eu.
Simplesmente não me cabia na cabeça o porquê de alguém escolher o álcool e as noitadas à família. Que não queria saber o facto de os filhos estarem a crescer e não acompanhar o crescimento deles, não querer saber os sonhos e os objetivos pessoais deles e só estaria constantemente a rebaixar.
Este é, sem dúvida, um dos textos que me custou mais lágrimas, que doeu nas pontas dos dedos à medida que o realizei, nada bate qualquer sentimento como este, não é fácil dar a volta a isto, são das marcas mais profundas que alguém poderá ter.
Hoje, torno-o publico, uma página negra da minha vida, todas elas, uma infância e uma crueldade, uma mentira (na boca das outras pessoas) e uma extrema realidade, para mim. Nunca antes tinha feito tanto sentido publicar isto. Chegou o momento certo.
Hoje, torno-o publico, uma página negra da minha vida, todas elas, uma infância e uma crueldade, uma mentira (na boca das outras pessoas) e uma extrema realidade, para mim. Nunca antes tinha feito tanto sentido publicar isto. Chegou o momento certo.


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