Âncora do passado.



A raiva apodera-se de mim e derruba todas as felicidades que possuo no peito.

E eu pergunto-me: porque é que não posso ser uma pessoa normal? 
Uma pessoa que aceite todas as circunstâncias da vida e sorria com todos os dentes que tem na boca sem correr o risco de no segundo a seguir já querer desaparecer e chorar como se não houvesse amanhã. 

É esta a minha pessoa real, cá dentro, que não consegue ser realmente feliz e por mais coisas boas que aconteçam à minha vida, eu corra o risco de a cada segundo desabar por completo em toda a profundidade de escuridão que tenho dentro de mim. 

O pior disto é não conseguir controlar, simplesmente queria sumir. Não voltar. Não ter dor. Ir para onde a raiva não existisse nem muito menos a escuridão e o vazio dentro de mim. 

Afasto e magoo as pessoas mais próximas, é isso que faço, por isso é que me refugio na minha mente vazia todas as vezes, na maior parte dos dias, porque não consigo aceitar certos acontecimentos e o passado ainda está muito na minha mente e nas experiências vividas. Ainda há gritos, há partidas que ficaram e há imensas cicatrizes e feridas não saradas. Não há muitas lágrimas, mas há um molho de nós na minha garganta e um enjoo constante que chega a ser incomodativo. 

Há o sentimento de insuficiência a todo o tempo, a todos os níveis, praticamente nos sentidos todos. Permanece o vazio constante que tento fingir que tenho e a escuridão gosta mais de mim, mesmo com tanta luz que me possa iluminar. 

Por mais que siga em frente a âncora que consta no passado levar-me-á sempre para atrás. À angústia e ao vazio cá dentro. Ao desprezo e à raiva. À impotência e inconsciência. 

À pureza e potência de palavras sentidas, como estas.





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